O dono da Turquia e o dono do campeonato

Papo Ligeiro, 2 de junho de 2009

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Quatro poles, cinco vitórias e um terceiro lugar em seis corridas. Nada menos que 92,73% dos pontos disputados. Essas são algumas das excepcionais marcas de Jenson Button em 2009. O inglês é, sem dúvidas, o dono da atual temporada. Porém não será surpresa caso Felipe Massa vença o GP da Turquia, no próximo domingo. Embora o quarto lugar em Mônaco seja, até o momento, o melhor resultado do brasileiro no ano, nenhum piloto possui retrospecto tão expressivo no circuito de Istambul Park quanto Felipe. Ele cravou pole e vitória nas últimas três edições da prova.

Desvendar porque o ferrarista anda tão bem em Istambul é tarefa difícil. Contudo, surgem indícios. Primeiro: Massa mostra excelente desempenho em circuitos cujas voltas são efetuadas no sentido anti-horário, caso de Istambul. Cinco de suas 11 vitórias na Fórmula-1 ocorreram em pistas com tal disposição. E vale ressaltar que os circuitos com curso anti-horário fazem parte de uma minoria no calendário do certame. Em 2009, são apenas quatro entre os 17 palcos de Grandes Prêmios: Istambul, Marina Bay (Cingapura), Interlagos e Abu Dhabi.

Diante desse cenário, podemos deduzir que Felipe é um piloto que se adapta rapidamente a variadas situações de pista e, sobretudo, que vai muito bem de preparo físico. Em princípio, pode parecer irrelevante, mas no automobilismo, cada detalhe, por menor que pareça, deve ser considerado. Nos circuitos anti-horários, a predominância de curvas é à esquerda, portanto, durante a corrida, esse lado do corpo do piloto é mais exigido que o direito –mais “trabalhado” ao longo da maioria do campeonato, nos traçados com sentido horário. Isso em uma categoria como a F-1, onde o piloto passa uma hora e meia de corrida com pescoço e cabeça “a prêmio” de acentuados graus de força gravitacional – a popular força G.

Não é segredo a ninguém. Durante frenagem, aceleração e alteração no curso do monoposto, a bendita força G está lá, atraindo o coitado para frente e para trás; ora para a esquerda, outrora, à direita. Claro, sem esquecer que os monopostos desenvolvem velocidades superiores a 300 km/h e gastam míseros 2,5 segundos para saírem de zero a 100 km/h. Portanto, não será estranho caso, diante de uma situação pouco encarada ao longo de um ano (traçado anti-horário), a cabeça de algum piloto “descansar” apenas de um lado do cockpit do carro no trecho final do GP de domingo.

Tão fundamental para o bom rendimento de Felipe na Turquia quanto a questão física é que, nas últimas três edições da prova, ele dispôs de equipamento competitivo. Em 2006, a Ferrari era uma das principais forças das pistas, ao lado da Renault; nos dois anos seguintes, brigava com a McLaren pelos primeiros postos. Nesse ano, apesar do patético começo da turma de Maranello – sem pontos nos três primeiros GPs, o rendimento do modelo F60 evoluiu consideravelmente após alterações aerodinâmicas, apresentadas na etapa da Espanha, disputada no último dia dez. Pode não ser suficiente para encantar a tiffosi, mas já dá alguma esperança de brigar por resultados significativos.

Em Barcelona, Massa quase beliscou um pódio. Mas a equipe errou na estratégia, ele teve de poupar combustível e, num rendimento inferior ao dos adversários, caiu do terceiro ao sexto posto. Já em Mônaco, o brasileiro terminou em quatro, imediatamente atrás do parceiro de Ferrari, Kimi Räikkönen. Aliás, não seria exagero algum afirmar que, após Red Bull e lampejos da Toyota, a segunda equipe mais veloz do grid agora é a Ferrari. Podemos ainda apostar que o time de Maranello será um duro rival para a Brawn daqui em diante.

Duro, claro, na disputa por vitórias. Afinal, a expectativa de título é extremamente pequena. Quase nula.

Claro que 110 pontos ainda estão em jogo nas 11 corridas até o término da temporada e que “corridas são corridas”, como dizia Juan Manuel Fangio. Claro que a Ferrari já provou em outras situações, como na conquista do título de Pilotos de 2007, que nunca deve ser subestimada. Trata-se de um time forte, capaz de dar a volta em meio a grandes adversidades. Mas, até o momento, tudo conspira a favor de Jenson Button, da Brawn. A começar pelo modelo BGP001. Trata-se de um carro com pedigree, tão bem concebido que dificilmente precisará de alterações acentuadas para manter o rendimento soberbo exibido desde os primeiros treinos livres da etapa de abertura de 2009, na Austrália. O motor Mercedes puxa muito bem. E, de quebra, a vantagem que Button construiu aos rivais, especialmente aos da escuderia italiana, impressiona.

O inglês tem 51 pontos, 42 e 43 de vantagem sobre Kimi Räikkönen e Felipe Massa respectivamente. São mais de 38% da pontuação máxima que um piloto poderá atingir até a etapa derradeira de 2009, em Abu Dhabi, em 1º de novembro. Isso permite ao ex-pupilo de Frank Williams se manter na frente da dupla de Maranello no campeonato até mesmo – pasme – se abandonar os próximos quatro GPs...! Portanto, nem o mais fanático torcedor ferrarista deve esperar Kimi ou Felipe à frente de Button na pontuação antes do GP da Europa, em 23 de agosto. Veja bem: nem mesmo o mais fanático torcedor ferrarista! Salvo, claro, alguma intervenção da gloriosa FIA.

Há quem possa questionar: Vettel pode rivalizar Button na disputa pelo título de 2009? E Rubinho? Bem, esses são assuntos que deixo para as próximas colunas.

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