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Dura recordação de Ímola

Papo Ligeiro, 6 de maio de 2003

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Inimaginável Grande Prêmio de Mônaco sem o show de Senna na prova de 1984. Inimaginável automobilismo sem Ayrton Senna. Inimaginável todos os domingos de corrida não recordar de Ayrton Senna da Silva. E pensar que tudo acabou naquele 1º de maio de 1994... Busco há anos uma maneira de passar tudo o que senti naquele dia para o papel. Contudo, vejo que quase nada é suficiente para expressar de modo fiel a dor daquele dia.

Acordei umas oito e pouco da manhã. Na época era somente um garotinho de nove anos sob a expectativa de conferir uma vitória de uma de nossas maiores personalidades. Era tudo o que mais queria. Mas havia uma atmosfera diferente naquela etapa de Ímola. Uma tensão que jamais havia sentido antes acompanhando automobilismo. Algo certamente contribuído pela morte de Roland Ratzenberger, no dia anterior.

Antes do GP, a imagem de Ayrton, já no cockpit da Williams, arrumando a balaclava com uma expressão melancólica, chamou minha atenção. Algo parecia aguçar meu sexto sentido, incomodava. Mas, sonhando com uma vitória de Senna, permanecia firme, à frente da televisão. O safety car entrou por causa do acidente na largada entre J.J. Lehto e Pedro Lamy, e permaneceu até a sétima volta. Foi quando o Williams do tricampeão partiu desgovernado rumo ao muro da Tamburello. A corrida foi interrompida.

Embora pasmo com o choque, respirei aliviado quando Ayrton – por estímulos nervosos - mexeu a cabeça. Pensei que a partir dali tudo se constituiria apenas a um grande susto, tudo logo ficaria bem. No entanto, quando os primeiros fiscais mantiveram distância do carro brasileiro após chegar ao local do acidente, o Brasil percebeu que havia algo muito errado. A remoção do tricampeão do carro foi demorada e, posteriormente, em uma tomada aérea, vi que havia muito sangue no chão. A situação era pior que esperava. Logo Senna foi transportado de helicóptero para um hospital próximo ao autódromo samarinense, o Maggiore.

Após algum tempo a corrida foi reiniciada. Mas para mim pouco importava: queria saber era do Ayrton! Como então adepto do pensamento de que “ídolos não morrem”, acreditava na recuperação do brasileiro como um presente prometido de natal.

A corrida acabou. A tarde passava lentamente até surgir um dos plantões jornalísticos da Rede Globo. Pensei: “É a notícia de sua recuperação”. Estava errado. Ele morreu.

O que seguiu naquele tarde foi um caos. Passei todo tempo me escondendo, para não mostrar o quanto estava triste, até que, à noite, chorei. Sabia que nunca mais iria ver a pessoa que me influenciou a acompanhar automobilismo. Um esporte belo, mas às vezes bruto.

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