Papo Ligeiro, 15 de julho de 2008
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Falar do Brasilzão é sempre uma tarefa delicada ao próprio brasileiro. Seja no âmbito econômico, político, esportivo ou qualquer outro que se possa imaginar.
Funciona assim: Sujeito criticou asperamente o País? Com certeza, não é um patriota, afinal nosso Brasil é “isso e aquilo”, está melhorando “aqui e acolá”... Elogiou? Ah... Esse, então, é um cego, incapaz de perceber nossas injustiças, nossos problemas... Contudo, mesmo sob o inevitável risco de ser “alvo-móvel” de críticas – embora paradão à frente de meu velho e cansado computador, não possuo dúvidas: na Fórmula-1, o Brasil está novamente no rumo certo para vitórias seqüentes e títulos. Prova disso foi a trinca brasileira em Silverstone.
Trinca?! Como assim? Simples. Na preliminar do GP inglês, em etapa válida pela Fórmula GP2, vitória de Bruno Senna. Lucas di Grassi recebeu a quadriculada em segundo lugar, posição, aliás, que também conquistou na bateria anterior, realizada no sábado. Já na etapa de F-1, Rubinho, com uma pilotagem irretocável, faturou o terceiro posto.
Curiosamente, o resultado de Rubens colocou fim em, pelo menos, três tabus. Primeiro: a Honda não tinha um piloto no pódio desde o GP do Brasil desde 2006 (Jenson Button, terceiro lugar). Segundo: o próprio Barrichello estava sem um pódiozinho desde a famigerada etapa de Indianápolis de 2004, quando as equipes com carros calçados por pneus Michelin boicotaram a prova e apenas seis monopostos, de pneus Bridgestone, correram. Entre os quais, claro, a Ferrari de Rubinho. Por fim, ele se tornou o segundo brazuca a “podiar” na temporada 2008; isso não ocorria desde 1991, quando Ayrton Senna e Nelson Piquet (sempre eles!) eram presenças constantes nas três primeiras colocações das provas do certame da FIA. Contudo, muito mais que qualquer marca, Rubinho pôde calar a boca de alguns críticos.
Muitos já conceituavam Barrica como um ex-piloto, acabado para o esporte. Tudo bem que a falta de pontos da Honda durante 2007 foi algo extremamente negativo à carreira do piloto paulistano. Contudo, se Rubens não foi genial no ano passado, a Honda não merecia louros, champanhe, bombons e juras de amor. O RA107, modelo usado pela Honda no campeonato alternou entre performances ruins e horríveis. Um verdadeiro aborto entre os carros já concebidos pela Fórmula-1.
Lógico que há quem pense algo do tipo: “É fácil falar que leva fé ou não em alguém após uma série de resultados desse sujeito”. Bem, isso daí pode acontecer com outros colegas. Comigo, não. Quem conhece parte de meu trabalho como colunista de automobilismo – pelo menos, a mínima parte, sabe de minha opinião sobre Rubinho: um piloto acima da média, que só não beliscou um título mundial porque encontrou uma estrutura fantasticamente voltada a Michael Schumacher nos tempos de Ferrari. Voltada por méritos, pois Schumi, em termos de talento, estava muito acima de qualquer um.
De qualquer modo, Rubinho faturou dois vice-campeonatos e outros resultados valorosos. Além disso, nas críticas ao desempenho do brasileiro em 2007, sempre salientava que o carro da Honda era um fracasso. Em qualquer categoria, carro bom é quesito indissociável na busca por resultados satisfatórios. Imaginem então na Fórmula-1, o top do esporte a motor no quesito tecnologia...
Barrichello continua o mesmo piloto bom de braço dos tempos de Ferrari. E não julgo isso exclusivamente pelo terceiro posto na Inglaterra. Nas nove etapas iniciais do campeonato 2008, Rubinho está bem melhor que o companheiro de Honda, Jenson Button. Antes mesmo de Silverstone, o brasileiro já somava cinco pontos. Button só três. Além disso, independente de circunstâncias, nosso representante já tinha até liderado corrida. E olha que o inglês é um piloto prestigiado e talentoso.
Claro que não devemos nos enganar. Dificilmente Rubens Barrichello será figura freqüente nos pódios a partir das próximas etapas. E até sequer na zona de pontos. Apesar de uma sensível melhora, a Honda continua com um carro pouco competitivo. Mas não podemos subestimar o trabalho da equipe anglo-japonesa, as estratégias de Ross Brawn e, especialmente, o talento de nosso Rubinho. Ele continua o mesmo!
Turminha de futuro
Além de Rubinho, outros dois brasileiros chamam a atenção com um bom trabalho nas pistas. Não na Fórmula-1, mas bem perto dela. Na GP2, principal série de acesso à F-1, Bruno Senna e Lucas di Grassi cumprem temporada marcante. Aliás, Lucas merece um destaque muito especial.
Atual piloto de testes e reserva da Renault, di Grassi estreou na temporada 2008 da GP2 apenas no fim de semana de Magny-Cours. Antes, o certame já contabilizava seis etapas realizadas. Vice-campeão da categoria em 2007 – superado apenas pelo atual piloto da Toyota, o alemão Timo Glock, Lucas já acumula nesse ano três segundos lugares em apenas quatro baterias e o quarto lugar na tabela de pontos. Possui média de pontos superior ao líder do campeonato, o italiano Giorgio Pantano. Até a chegada dele à equipe à Barwa International Campos Team, equipe do ex-piloto espanhol de F-1 Adrian Campos, o time somara apenas 18 pontos.
Mas se di Grassi possui o melhor retrospecto entre os pilotos nas últimas quatro etapas, Bruno Senna é o brasileiro com maiores chances de lutar pelo caneco de 2008. Bruno pontuou em sete das dez provas realizadas, com três pódios (duas vitórias e um segundo lugar). Porém, mais que a disputa pelo título, Senna parece estar muito perto da F-1 em 2009. Alheio às boatarias, a chance do brasileiro debutar no certame pela equipe Toro Rosso, ao que indica, é enorme. Por dois fatores chaves.
Primeiro: Gerhard Berger. O co-proprietário do time é amigo da família Senna e ajudou Bruno no regresso ao automobilismo, em 2004. Trata-se de um fã confesso do trabalho do sobrinho de Ayrton. Segundo: com o anúncio da aposentadoria de David Coulthard ao final desse ano, abre-se uma vaga na Red Bull. O alemão Sebastian Vettel, que cumpre temporada muito positiva pela Toro Rosso, é o favorito ao posto. Já Vettel seria substituído na STR por Bruno. Mesmo que essas peças não se encaixem, vale lembrar que Bourdais ainda não definiu seu futuro. É provável que permaneça na Toro Rosso, mas uma fonte que entende muito de automobilismo me garante que o telefone do francês vai tocar brevemente. Assunto: convite para regressar ao automobilismo ianque, agora na Indy Racing League.
Já para di Grassi, o ingresso na F-1 em 2009 parece um pouco mais complicado. Embora seja o mais imediato na lista de sucessão aos titulares Fernando Alonso e Nelsinho Piquet, não é possível assegurar se Lucas, por exemplo, teria uma chance caso Alonso deixasse o time; apesar do Brasil ser um mercado importante à Renault, ter dois pilotos do País nos carros do time poderia ser considerado algo inviável. O rival à vaga poderia vir de outra equipe ou até mesmo ser Romain Grosjean, jovem francês que também integra a equipe de Enstone e ganhou espaço por lá após faturar a GP2 asiática, no início do ano. De repente, Lucas segue mais um ano como piloto de testes ou até vai parar em outro time, por empréstimo. Até porque a Petrobras pode virar fator importante – mas isso é assunto para outras colunas.
Entretanto se um bom futuro parece esperar por Bruno e Lucas na Fórmula-1, vale ressaltar que nosso esquadrão já está bem representado no certame da FIA. Além de Rubinho, Felipe Massa e Nelsinho Piquet merecem, incontestavelmente, nossa confiança. Apesar do deslize em Silverstone, Nelsinho já mostrou que é um grande talento, capaz de andar em ritmo semelhante ao de Alonso. Basta apenas tempo para lapidar o talento às características da F-1. Se a Renault tiver paciência, estará criando um forte aspirante a vitórias e títulos num período nem tão distante – desde que, claro, a própria equipe francesa seja capaz de fornecer um carro à altura de tais façanhas, pois, repito, equipamento vale muito na categoria da FIA. Já Massa continua firme na briga pelo campeonato. Não é um embate nada fácil, mas Felipe está num bom momento, extraindo excelentes performances de uma Ferrari que mostra-se sensivelmente superior a McLaren e BMW.
Futuro com Bruno e Lucas. Presente com Massa, Nelsinho e Rubinho. Passado com Emerson, Nelson Piquet e Ayrton. Nada mal para um país que nem obrigação teria de colocar representantes na F-1 dado o estado de alguns autódromos, a falta de categorias escola, o fato do automobilismo, já nas primeiras aceleradas, ser um esporte totalmente inviável ao padrão financeiro de 99,9% dos brasileiros...